Sobre Cópias, Falsificações e Veracidade no Mundo das Artes

Imagine a seguinte situação: Alemanha, 1940, escondido e temendo ser pego pela Gestapo, comete suicídio. O temor foi maior do que a vida, mas só quem estava lá poderia imaginar a dimensão, o horror, em ser levado para os campos de concentração. Talvez isso ou mais outras coisas tenham levado um dos maiores críticos do mundo a realizar tal ato, o suicídio, em um momento tão profícuo em sua vida. O mundo perdeu, naquele ano, Walter Benjamin, filósofo, crítico, escritor judeu, que entre outras obras tem como uma das mais famosas, “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”.

Neste texto, o autor discute a perda da “aura” na obra de arte a partir de sua reprodução, a capacidade em copiar. Benjamin entendia a obra de arte como algo único, quase no plano do religioso, em relação ao culto, e por isso, a ideia de aura e encanto único. A reprodução destruiu essa aura, na medida em que vulgariza, espalha suas cópias, fazendo com que se perca esse “culto” ao que fora, até então, “único” no mundo.

Claro, isso também afeta a sociedade, suas classes, pois a obra de arte única era acessível a uma classe privilegiada, que herdava essa cultura materializada nas obras. Com a reprodução técnica, muda-se o status que as classes sociais menos favorecidas têm um novo acesso. Ao mesmo tempo em que se anuncia, portanto, a quebra dessa aura, anuncia-se a possibilidade de um novo relacionamento com as massas.

O texto, escrito em 1936, é utilizado até hoje por críticos, servindo como material para análise e estudos sobre a obra de arte. Claro que temos aqui uma breve e talvez bem resumida ou mesmo grosseira apresentação, para os estudiosos de Benjamin que não são poucos, mas que pode servir como introdução e base para o que, afinal, queremos discutir.

As Obras Falsificadas

Vamos para um novo exercício de imaginação, desta vez não tão dramático como o do primeiro parágrafo. Como seria um mercado que movimenta milhões de dólares na compra e venda de uma obra autêntica no mercado das artes plásticas, por exemplo. Como seria o desastre, pagar caro por uma obra, a partir de uma casa respeitável no mercado e descobrir que é falsa?

O mercado vive de credibilidade e confiança. Para valores altos movimentados por este mercado, devemos acreditar em um sistema que proteja tais obras, um exército de críticos e especialistas em obras e artistas, que junto com um quadro técnico ajudam a fortalecer e cuidar para que este mercado não desabe. Os valores são altos e os cuidados com a autenticidade também. Um tema perfeito para Hollywood!

Filmes Sobre Falsificação de Obras de Arte

A indústria do cinema não deixou para trás. Junte este mercado da alta sociedade, misture romance e um pouco de adrenalina e teremos alguns filmes como, por exemplo, “Thomas Crow – A Arte do Crime”. Este filme apresenta um lado que não discutimos aqui: a investigação, o seguro (sim, obras de arte possuem seguro e são valores extraordinários, tenha certeza disso). O filme é de 1999. John McTiernan, diretor de filmes de ação como “Duro de matar”, dirige este filme policial, com um bom elenco para a época.

O protagonista é o ator Pierce Brosnan, até então o agente mais famoso da Rainha. Sim, ele mesmo, 007, Bond, James Bond. Seu antagonista foi a estrela Renee Russo, no papel de investigadora. Um milionário (Pierce Brosnan) que adora furtar quadros famosos, realiza um roubo a um museu. Uma investigação é feita, pois o que se apresenta, no lugar, é um quadro falso, enquanto o verdadeiro foi roubado.

Como se trata de um filme de ação, não vai faltar adrenalina; será que ele vai ser pego? Nem romance, um belo casal de protagonistas, dançando tango, olhares, vinho e desejo, em uma das cenas mais quentes do filme. Mas o curioso, uma cópia, uma obra falsificada está lá no museu, o público não a identifica, e a procura pelo original é o que faz a narrativa acelerar, movimentar-se.

Cópia x Falsificação

Não seria um falso raciocínio se disséssemos que a cópia é uma espécie de “falsificação” autorizada e a falsificação, uma cópia não autorizada. Mas poderíamos ir um pouco além para perceber o que está muitas vezes pendurado em nossas casas: cópias de quadros famosos, aliás, existem lojas que vendem tais cópias para que possamos pendurar em nossas casas, um Picasso, um Van Gogh, um Romero Britto.

Ter uma cópia em casa ao mesmo tempo faz com que se perca a aura da obra original, mas ao mesmo tempo, a torna corrente, próxima a todos nós. Há também o outro lado. A busca por veracidade. É esta obra autêntica? Quem pode verificar e autenticá-la para que possa circular no mercado das artes, nos grandes leilões?

O Documentário “Milionária por Acaso”

Aqui podemos citar um documentário bem interessante, produzido em 2006. No original, americano, o título é “Who the Fuck is Jakson Pollock?”, mas aqui no Brasil saiu com o título “Milionária por Acaso”. O título faz parecer tratar-se de uma comédia, em alguns sites aparece como este gênero, mas na verdade é um documentário.

Veja que interessante, temos a história de Teri Horton, na época com 73 anos, uma caminhoneira de pouca instrução, que se apresenta como uma autêntica boca suja, alega ter comprado por cinco dólares, em uma loja de beira de estrada, uma tela de Jakson Pollock que pode valer cinquenta milhões de dólares. Há quinze anos, ela trava uma luta com o mercado para que a tela seja autenticada.

O documentário registra a opinião de críticos e especialistas. A situação é esta: como provar? No documentário, especialistas, os favoráveis, garantem que é impossível falsificar um Pollock. Claro, o diretor faz questão de frisar a ignorância de Teri diante de Pollock. Daí o título original.

Obras Célebres

Podemos ampliar essa questão da cópia, falsificação e veracidade. Basta ver obras maravilhosas como Mona Lisa, dentre outros, que saem de seu formato original para estampar camisa, guarda-chuvas, bottons, bolsas e até mesmo caneca. Estabelece uma nova relação com o objeto artístico. Seria uma vulgarização, no sentido pejorativo, que desgasta o próprio valor, banalizando? Ou poderia haver, nesta suposta “vulgarização”, releituras, ou seja, a obra, já banalizada, ao sofrer uma nova releitura, em um outro suporte, busca resgatar, talvez, um pouco de sua aura. Seria possível?

Ainda um pouco sobre as questões destacadas no parágrafo anterior. Um bom exemplo, vejamos. Na época em que Portugal estava submetido à Espanha, o grande poeta Luís de Camões era famoso. Seus versos eram vendidos na praça por um bom preço. Ler e recitar era quase um dever cívico, se a ideia de civismo pertencesse a esta época.

Desse momento, muitos outros poetas desconhecidos, ou mesmo editores, escreviam versos e punham o nome de Luís de Camões. É a falsificação buscando a veracidade, mas é mais do que isso, é a autoria se submetendo a um nome e corpo, como se quisesse apenas viver à sombra do nome do outro. E foram tantos, que hoje existe uma área específica da literatura para separar o joio do trigo. O que é original e o que não é. E foram tantos os casos na literatura.

A Falsificação na Era Digital

Hoje, a internet trouxe essa questão à tona, através dos e-mails. São atribuídas muitas mensagens escritas por autores já reconhecidos pelo público: Luis Fernando Veríssimo, por exemplo, há alguns anos, devia ser o recordista, tamanha a quantidade de textos que surgiam nas listas de e-mails. Chegou ao ponto de o autor ter de manifestar-se e dizer que não era o autor.

Mas o caso mais interessante ocorreu na Holanda. Hans van Meegeren criou algumas pinturas, seis, e falsificou, assinando como Vermeer. Logo após o fim da II Guerra, tais obras foram recuperadas do espólio alemão e a polícia holandesa procurou quem poderia ter vendido para os alemães.

Chegaram em Meegeren, que estava rico com a venda dos quadros. Preso e acusado de colaboracionismo com os alemães, teve de provar que os quadros eram falsificados. E que talento ele tinha! Enganou a todos que faziam parte do mercado das artes. Na prisão, teve um estúdio onde pintou outros quadros para provar que era o responsável pelas falsificações. E conseguiu. Então, ao final de todo o processo, a queixa de colaboracionismo, queixa grave, foi retirada, sendo apenas acusado de falsificar as obras, gerando um verdadeiro constrangimento a todos os especialistas em Vermeer.

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Categoria(s) do artigo:
Arte
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